Vejo esses posts cheios de movimento e energia. Como se a vida fosse um espetáculo épico. A alegria parece reinar aos baldes. Por aqui, no entanto, não consigo me desprender da monotonia, da solidão. Aprendo um novo idioma para sonhar mais intensamente com as viagens que farei um dia. Meus passeios de hoje são cheios de receios, a máscara me protege e me esconde. As mãos vão empastadas de álcool em gel. Vou vivendo um dia atrás do outro, dias sempre iguais, encerrada em casa. Cozinho, arrumo a casa, trabalho. Tudo se passa dentro das quatro paredes de meu apartamento, vejo os dias clarearem e ofuscarem a sua luz, da minha janela presencio coloridos pores-de-sol. Vejo a estrela d'alva apontar, acaricio a minha gata. Raramente chove, mas isto não faz muita diferença para quem não tem quintal. Sonho com uma casa com piscina, banheira, mas vislumbro também uma vida com mais gente por perto. Como sinto falta de amigas! Eu gostaria de ter uma vida mais elétrica, embora estas sensações tenham um preço que não queira pagar mais. Tenho saudade das conversas fáceis, da alegria das fofocas contadas ao sol. Me sinto muito só e isolada de todos. Começo a ter saudades de minha mocidade, embora acredite que o que sinto falta mesmo é da presença de gente na minha vida. Parece que ultimamente as pessoas tem me decepcionado demais. Parece não haver uma aproximação sincera, leve. Acabo de ler uns conselhos aqui no face, essas coisas para o bem viver e aqui diz "não se demore onde não é bem recebido". Acho que é isso, tenho me culpado demais por ter me "distanciado" de pessoas que, na verdade, elas me quiseram longe também. Um dia, comecei a ser incisiva, insistente em me aproximar de antigas pessoas da minha vida, mas percebi que as coisas não funcionam assim. Na verdade, não sei bem como essa dança de gente funciona. Era tão boa nisto na faculdade, mas agora que sou adulta, independente emocional e financeiramente, encontro esses tipos de crespo. Gostaria de sair por aí e encontrar novos círculos, gente semelhante a mim no mundo. Mas a pandemia veio e agora fica ainda mais complicado superar essas questões. Acredito que o único meio que tenho seja mentalizar boas pessoas se aproximando de mim. Dar valor ao afeto das poucas pessoas ao meu redor. Imaginar que um dia vou me sentir menos só e com mãos menos atadas. Parece que este distanciamento social entrou nos meus ossos, dentro do meu ser. Não consigo achar natural essas desinfecção contínua, essa falta de abraços e toques. Não consigo achar comum não querer pegar o meu sobrinho, não ficar muito perto dos meus pais. Não é natural. E já faz um tempo de estamos tocando a vida assim. Esses dias eu fiz uma autorização por escrito para um aluno entrar dentro da escola. O mundo virou do avesso e estou meio sem humor para fingir que está tudo bem. Estou sozinha e triste.
Quem sou eu
- Raquel de Souza
- Sou escritora e uso do artifício de escrever para depurar pensamentos e sonhos. Sou uma leitora apaixonada, curto assistir a filmes e séries e ir ao teatro. Tenho dois livros publicados: "A ilha e a menina" e "Livremente Mara".
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sábado, 22 de agosto de 2020
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Amizade Virtual – quem ainda não tem?
Hoje eu tive um momento ótimo,
com uma companhia agradabilíssima. Rimos até ficar cansados, dançamos, falamos
sobre sexo, cultura ao arredor do mundo, família, sonhos, guerras, festas,
passando de um assunto para outro sem regras, limites. Não havia vinho ou cerveja para alavancar os
ânimos, mas estávamos felizes. Também, nas altas horas de uma tarde de sexta-feira,
ainda não chegou a hora de dar aquela relaxada, se é que vai chegar essa hora
por aqui hoje. Sim, hoje, nesta tarde agradável de sexta-feira, me diverti
muito mais do que muitas vezes que já fui a barzinhos e enchi a cara com
companhias que eram mais vazias que os copos que a gente sugava vorazmente. Aí
entendi uma coisa: não importa que horas são, o que realmente conta, é qual a
sua companhia. É muito bom encontrar pessoas que acrescentam, que nos fazem
aprender e divertir ao mesmo tempo. Eu passei um tempo sem ter essas pessoas,
esses anjos por perto e a minha vida ficou, em dois tempos, sem sentido. O mais curioso dessa história é que essa
pessoa com quem passei esta tarde maravilhosa eu ainda não conheço
pessoalmente. Mora lá do outro lado do mundo e nem em português a gente fala.
Falamos a língua dos gringos que nem é a língua materna dele também. Assim,
entendi uma coisa: não tem problema se você conhece uma pessoa ou não
pessoalmente. Esse papo de que as relações na internet são superficiais é mero
preconceito. Pode haver no mundo virtual relações sadias, de amizade
verdadeira, com muito mais qualidade, aliás, que as amizades convencionais,
aquelas que a gente se relaciona cara a cara. Alguém pode simplesmente dizer “coitada,
passou a tarde com um sujeito do outro lado da Terra, sendo que poderia ter se
dedicado à relações convencionais.” Mas há de se convir que os encontros que a
internet proporciona, só ela faz isso. Onde poderia encontrar esta pessoa tão
linda? De tão longe? A internet diminuiu a distância e com isso, modificou o meio
como as pessoas se relacionam, mas não o modo. Gostamos do mesmo jeito, rimos e
nos divertimos da mesma maneira. Sentimos saudade do toque, da convivência, do
cheiro, afinal nós sabemos que seria perfeito se estivéssemos juntos no tempo e
lugar. No entanto, a qualidade do tempo que se passa com a pessoa, sendo
virtualmente ou não, é o que conta. Não adianta nada ficar fixado na ideia de
que somente relações convencionais funcionam se essas relações não têm
qualidade. O importante, minha gente, é fazer dos encontros a realização de um
milagre, o milagre de ser mais feliz, de aprender, de abrir a mente para coisas
novas e abandonar de uma vez por todas o senso comum com seus conceitos
primitivos do que é a felicidade.
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