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Sou escritora e atriz. Adoro ler, escrever, assistir a filmes e ir ao teatro. Escrevi dois livros "A ilha e a menina" e "Livremente Mara", que virou peça de teatro e estreia no final deste ano.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ensaio sobre a Monogamia


            A monogamia, tão difundida nos nossos costumes ocidentais, tem uma abrangência muito maior que nos dicionários. Segundo o Aurélio, por exemplo, a monogamia é “Regra, costume ou prática socialmente regulamentada segundo a qual uma pessoa (homem ou mulher) não pode ter mais de um cônjuge.” Mas será que basta ser casado com uma única pessoa para ser monogâmico?

            A monogamia vai muito além de apenas ser casado com uma pessoa só. Envolve a fidelidade para com esse indivíduo, ou seja, esse sujeito fica restrito a praticar atos sexuais apenas com a pessoa em que designou para ser o seu parceiro.  Essa ideia parece um tanto atrasada nesse mundo livre de hoje, no entanto, há inúmeros casais que vivem sob esse regime voluntariamente.

            Essa ideia um tanto retrograda para o senso comum, poderíamos dizer, de ser monogâmico de corpo e alma, proporciona à pessoa que a pratica uma ausência de conflitos internos. Isso porque não se fica vagando no mundo das mil escolhas.

            Vivemos num mundo povoado de possibilidades. Nas redes sociais, nas ruas, nas baladas, nos bares, todos os lugares estão sendo oferecidos centenas de corpos sarados, um mais atraente que o outro. Na televisão passam as modelos chacoalhando os quadris e os homens não têm barriga.

            Desse modo, muitos ficam perdidos nessa infinidade de opções e, muitas vezes, acabam por não escolher por coisa nenhuma e ficam migrando de relacionamento a relacionamento. Outros assumem um único relacionamento oficial, mas ainda assim saltam de relação a relação. De certa forma, esse tipo de atitude causa um tipo de ansiedade muito comum no nosso tempo, como se qualquer escolha que você fizesse fosse uma perda de tempo, um sentimento de que sempre aparecerá coisa melhor.

            Fazer escolhas, tomar decisões passou a ser mais doloroso. No entanto, decidir faz parte da vida, um sinal de maturidade. E ser maduro não é só pensar em si mesmo, se deixar levar pelos impulsos e necessidades mais instintivas, mas se considerar, planejar o futuro, se respeitar e preservar. E isso leva a ter consideração pelo outro, respeitar e fazer sentir o amor. Ser maduro é ter controle de seus instintos e dar vasão a sentimentos e atitudes mais nobres.

            Decidir ficar com uma pessoa, ser fiel pode ser uma escolha penosa no nosso universo repleto de luxúria e beleza. Onde se evidencia a soltura dos impulsos mais baixos. Quando se pode ter quase tudo pagando, até mesmo um amor fingido. Só que chega uma hora que envelhecemos, amadurecemos e ansiamos por algo concreto. As coisas voláteis perdem o sentido.

            Na bíblia, no livro de Eclesiastes, se diz mais ou menos assim: quando eu era menino fazia coisas de menino, agora sou adulto e anseio por coisas de adulto. Desse modo, a monogamia é uma evolução dos relacionamentos. É ela que proporciona calmaria, verdade, confiança, enquanto que o relacionamento infiel gera justamente os sentimentos opostos como ansiedade, desconfiança e um culto à mentira.

            Um religioso foi altamente criticado porque acredita que a infidelidade consentida é legítima. Isso deixou uma brecha para pensar se um relacionamento desse porte seria realmente justo. Será que um casamento feito sob essas regras conseguiria desenvolver alicerces emocionais sadios? Não haveria aí uma disputa para saber quem “trai” mais, quem seduz melhor? Isso não levaria o casal a uma contenda interna e silenciosa que só geraria sofrimento no final das contas? E, afinal, ainda poderia haver o risco contínuo da pessoa amada se debandar por outros caminhos e braços. É claro que estamos nos referindo a um tempo em que tudo muda com frequência e é difícil falar em estabilidade. Mas é preciso preservá-la o mais possível. Só assim torna-se real a casa, a aconchego, o amor, a família. A estabilidade emocional vem também da monogamia.

            Desde os tempos bíblicos se refere à monogamia feminina. Os homens poderiam casar com várias mulheres, porém deveria ser garantia da fidelidade da mulher. Isso até tem uma explicação, aliás os maridos queriam ter a certeza que os filhos que estavam criando eram realmente deles. Só que para isso houve uma repressão muito forte em relação às mulheres. Implantaram regras e mais regras a seguir para legitimar a fidelidade.

            No velho mundo, no século XVIII, houve casos de histeria por toda parte. Mulheres que tinham espasmos musculares, falavam coisas sem sentido entre outros sintomas dos mais bizarros. Não havia problemas clínicos, no entanto, lá estava a histeria alojada nas mulheres. Com a psicanálise, se descobriu que tal doença tinha suas origens na repressão sexual. A repressão era tão exacerbada que as mulheres se negavam sexualmente e essa sexualidade reprimida acabou por desenvolver essa doença. Tudo isso por quê? Para controlar a mulher, para fazer dela um animal domável e fiel. Nessa época a mulher não tinha muita escolha. Era isso ou o oposto: a prostituição. Acredito que muitas mulheres de espírito livre acabaram por optar a ser prostitutas, pois poderiam ter uma vida mais rica de experiências e não precisavam ficar submetidas a serem parideiras, enquanto os maridos faziam o que bem entendessem.

            A impossibilidade do divórcio fazia com que muitos maridos não fossem muito cuidadosos com as suas esposas, embora elas estivessem sempre que submeter à tradição. Ser fiel e nunca se dar ao luxo de pensar em experimentar outra vida.

            No entanto, muitas histórias foram construídas paralelas a essa máscara social. Houveram muitas traições, paixões, sofrimento, filhos bastardos e mortes. A literatura retrata muitos desses casos, como no caso da infiel madame Bovary de Flaubert, que teve um fim agonizante. No entanto, o costume da monogamia atravessou esse rio negro de convenções e acabou chegando aos dias de hoje.

            Hoje, que se tem pílula anticoncepcional e outros métodos de controle de natalidade, que se pode decidir quando e de quem engravidar, parece estranho defender a monogamia no que se refere à exclusividade de se relacionar-se sexualmente com apenas com o parceiro. Afinal, é possível, em tese, garantir a paternidade dos filhos.

            No entanto, as coisas na teoria e envoltas da razão parecem dar muito certo. Porém, a infidelidade matrimonial ainda causa filhos fora do casamento, sofrimento e assassinatos passionais, além de rompimentos desnecessários de pessoas que se amam.

            Muitas vezes se utiliza como argumento para a monogamia a religião e moralidade, embora isso seja considerado apenas porque ser monogâmico é ser mais honesto. Ser monogâmico é ter mais amor e consideração, é ter mais respeito pelo outro, mais verdade.

            Através da monogamia é que se pode constituir uma família estruturada, equilibrada. Não que isso seja o único requisito para se formar uma família com base sólida, mas auxilia muito na salubridade emocional do casal.

            Ser monogâmico não é uma escolha que se faz por toda a vida, mas uma decisão diária. Aliás, nunca se há decisão definitiva sobre algo. As coisas mudam muito, o mundo está em constante revolução. Mas, no meio desse movimento todo, é um bálsamo ter alguma calmaria, a constância emocional que a monogamia proporciona. É agradável pensar em família no meio de tanta segregação e superficialidade. As tecnologias não tiraram do ser humano as suas necessidades mais importantes que é estar envolvido de pessoas que ele considera e confia e cujo o sentimento é recíproco. O casamento, a família é uma maneira do indivíduo se rodear de pessoas queridas. E nesse universo intelectual, em que se prega tanta liberdade, é a instituição da família, ao sabor burguês que ainda funciona, que ainda vigora. E para que as coisas caminhem nos trilhos, nada como evidenciar um pouco de norma nessa liberdade do intelecto, muito bela nos escritos, mas árdua de ser praticada. Melhor mesmo é ficar com o básico, e colocar a cabeça para pensar no conforto do sofá.

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